segunda-feira, 28 de maio de 2012

UMA BATALHA DE XANGÔ


O REI DE OYÓ


Xangô, era rei de Oyó, governava sua cidade com prudência e justiça, e tudo corria bem em seu reino quando recebeu a notícia de que outro povo muito forte e numeroso atacaria sua cidade. O rei da cidade inimiga queria se apossar das terras de Oyó e fazer seus guerreiros escravos.

Xangô já havia passado por isso muitas outras vezes e nunca havia desistido, recuado ou se entregado a qualquer inimigo, por mais poderoso que fosse. Porém dessa vez era diferente, analisou a situação e viu que estava em larga desvantagem, todo seu povo junto era menos numeroso que o povo inimigo, e ainda metade dos guerreiros haviam partido para outro reino, onde participariam de uma confraternização aos deuses pela boa colheita da região. Imediatamente enviou um mensageiro para chamar os guerreiros de volta. Tentou ganhar tempo om o rei da tribo inimiga e propôs um acordo.

-Podemos chegar a um acordo, eu posso ceder uma parte do meu território a vocês, não precisamos guerrear entre nós.

-Nada disso, sabemos que sua tribo não dispõe de metade dos seus guerreiros e queremos todo seu território, se se renderem, posso poupar suas mulheres e crianças, levaremos os soldados como escravos, precisamos de braços fortes para construir nosso império. O rei inimigo falava isso enquanto ria com vontade, divertindo-se à custa da situação.

Xangô consultou o povo e seus soldados, disseram que não aceitariam ser escravos de ninguém, sendo assim preferiam morrer a ter que se submeter à escravidão. Xangô ponderou que eles poderiam partir com o exército inimigo e quando o resto de seu exército regressasse, eles iriam libertá-los. Os soldados disseram não confiar naquele rei que já havia demonstrado sua crueldade em outras guerras. Não havia alternativas, a não ser lutar.

A batalha foi ferrenha, com o sentimento de que não havia mais nada a perder, pois se vivessem seriam escravos, os guerreiros de Oyó lutaram como nunca lutaram antes. As mulheres do reino também entraram na batalha para defenderem a liberdade de seus maridos. Até as crianças do reino, vendo seus pais lutando com tanta fúria, entraram na batalha ao final do primeiro dia.

Porém a tribo inimiga era muito mais forte em força e número que a de Oyó. A guerra estava sendo perdida. Xangô, vendo seu povo cair um a um, seus soldados, suas mulheres e suas crianças morrendo, resolveu se retirar do campo de batalha. Refugiou-se nos montes próximo da cidade. O povo inimigo comemorou a vitória e adentrou a cidade no dia seguinte. Comeram, beberam, festejaram e saquearam a cidade, colocaram fogo em casas e templos e se preparavam para subir as montanhas para capturar o resto dos soldados já enfraquecidos.

Enquanto isso Xangô falava ao povo. -Não podemos baixar nosso moral, perdemos uma parte da batalha, mas ainda não perdemos a guerra. Se soldados nossos caíram no campo de batalha, soldados deles também caíram. Se continuássemos o combate naquela situação, em número inferior, seríamos dizimados. Foi preciso recuar para que eles pensassem que venceram e se distraíssem com o saque da cidade. Neste momento nossa legião de soldados caminha em nossa direção. Vamos aguardar os inimigos aqui e rezar a Oxalá para que nossos filhos cheguem a tempo.

Na manhã do terceiro dia a batalha teve início novamente. Mas no momento de iniciar o combate chegaram o restante dos filhos de Oyó, agora acompanhados por soldados das cidades vizinhas. Ao todo este exército formava um número três vezes maior que o da tribo inimiga. Os soldados, as mulheres e as crianças que haviam lutado na batalha anterior nem precisaram combater novamente. A tribo inimiga foi exterminada ao pé da montanha que protegia o reino de Oyó.

Depois dessa guerra Xangô ganhou ainda mais o respeito de seu povo e dos reis das cidades vizinhas. Apesar de uma situação tão adversa, não deixou de lutar por sua vida e liberdade, e ao sentir uma guerra perdida, não deixou de recuar no momento necessário para recompor suas forças.


Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

sexta-feira, 4 de maio de 2012

UMA MÃE DESESPERADA


DESESPERO NO MORRO

                Uma mulher desesperada procurou o centro aonde ia de vez em quando para suplicar ajuda em favor de seu filho que havia se envolvido com os traficantes do morro e agora corria perigo de ser morto. Já fazia um dia que ele não aparecia em casa e os boatos não eram nada animadores. A mulher já não tinha mais para quem pedir ajuda, os vizinhos já não aguentavam nem ouvir falar no garoto, sempre ajudavam a mãe e ele voltava a aprontar.

No caminho para o centro ela ia pensando qual seria o melhor orixá para ajudar seu filho. Logo pensou em Exu, o grande orixá protetor de todo terreiro e seus soldados que sempre assumem a linha de frente numa guerra. Depois pensou em Ogum, o guerreiro vencedor de demandas que adora uma batalha por uma causa justa. Depois veio Oxóssi, o caboclo de Oxalá, ou Xangô, o orixá da justiça. Assim, nesse pensar e se enchendo de fé esperança, a mulher foi caminhando em direção ao templo.

Naquela tarde a casa estava cheia, sua senha para ser atendida era uma das últimas. Enquanto esperava na assistência a sua vez, a mulher, cansada de noites sem dormir de preocupação pelo filho, entrou num sono profundo. Em seu sono ela conversou com os quatro Orixás que poderiam salvar seu filho.

Exu disse à mulher que o moleque não era flor que se cheirasse, ele havia procurado os problemas com suas próprias mãos, e que ele, Exu, respeitava acima de tudo a Lei Maior, a lei da causa e consequência, a lei que diz que para cada ação corresponde uma reação, então o moleque tinha que pagar por seus feitos.

Xangô disse à mulher que ele não gostava de injustiças e que o filho dela devia aos traficantes, por isso ele deveria pagar a dívida, e se os traficantes continuassem a incomodá-lo ela poderia procurá-lo.

Ogum respondeu à mulher que o filho se entregara àquela situação, assim, ele só poderia intervir se o filho o procurasse e tivesse disposto a lutar também. Ele, guerreiro da luz que é, só luta por quem faz por merecer.

Oxóssi respondeu que o guri era um ingrato, já havia o ajudado várias vezes e ele nunca havia voltado ali para agradecer, então era hora de ele pagar pelos seus feitos, para tudo na vida existe um limite.

A mulher desesperada acordou e ficou mais desesperada ainda. Em sua tristeza limitou-se a rezar em silêncio uma oração simples. Senhor Oxalá, tem misericórdia de sua filha, o menino é meu filho, não importa o quanto ele tenha errado, eu o amo. Levantou-se e, sem ânimo de ao menos passar pelos médiuns, entregou sua senha e foi para casa desanimada. A angústia havia tomado conta da pobre mulher, o caminho de volta para casa parecia mais triste que a ida ao centro. Parou várias vezes para chorar e quase chegou a desmaiar de fraqueza.

Chegando em casa, para sua surpresa seu filho a aguardava sossegadamente no sofá em frente à televisão. Ela o abraçou em prantos e perguntou o que houve, porque ele estava ali e tão sossegado.

Mãe, eu não sei o que aconteceu, só sei que os caras me pegaram e me levaram pra um beco, eu sabia que ia morrer porque aquele beco é onde ele acertam as contas com os devedores. Bem, eu já tinha dado minha vida por perdida e nessa hora pensava na senhora e porque eu não a ouvi antes e abandonei de vez essa vida. Ajoelhei como eles mandaram e esperei o pior. Ouvi um tiro, e em seguida vários outros na sequência. Abri os olhos e vi uns caras caídos no chão e os que não estavam caídos corriam para todas as direções. Eu também corri, nem sei pra onde. No corre-corre, pega-que-pega vim parar aqui à tarde. Depois fiquei sabendo pela tevê que a polícia tinha invadido o morro, matado os líderes da gangue, prendido o resto do bando e ocupado de vez o morro. Então acabou, mãe, não tem mais nada que se preocupar. Estou livre. Vou tentar me arrumar na vida de agora pra frente.

Na gira seguinte, a mãe, mesmo sem entender nada, foi agradecer o milagre, agora na companhia do filho. Ao ajoelhar ao pé do altar de Oxalá, teve uma visão esclarecedora. Uma onda de energia arrebatadora irradiou sobre ela e três mulheres se apresentaram à sua frente. Quem são as senhoras?

Eu sou Oxum, vim te ajudar porque és minha filha, sou sua protetora, além disso, sou mãe como você e sei do seu amor por seu filho.

Eu sou Iansã, vim te ajudar porque não gosto de ver o forte subjugar o fraco tão covardemente, além disso, sou mãe como você e não suporto ver um filho meu correndo perigo sem fazer nada.

Eu sou iemanjá, eu vim em teu socorro porque sua oração foi sincera, além disso, sou mãe como você e não consigo ver um filho tão amado pela mãe sofrendo sem fazer nada.

A mulher agradeceu mais uma vez às três mães e saiu do centro às pressas; algum tempo depois ela voltou, trazia em suas mãos três flores singelas, que as depositou uma no altar de Oxum, outra no altar de Iansã e outra no altar de Iemanjá.



Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O CABOCLO DOS ORIXÁS


SETE FLECHAS

Uma doce e suave canção tirada de uma flauta de bambu anunciava a chegada do barco enfeitado de flores e seu arranjo fúnebre, calmamente o barco deslizava sobre o tranquilo rio Juti. Um som seco e lento de um tambor solitário veio juntar sua tristeza à da canção da flauta, era a cerimónia de enterro do maior e mais valente guerreiro das tribos kaiwri. A guerra entre as tribos dessa região, em um acordo único, parou por sete dias para esta cerimônia. Guerreiros, caciques e pajés vieram de todos os cantos conhecidos para o ato solene. Perfilados logo após a margem direita do rio, mulheres da tribo Gapó choravam copiosamente a partida para o reino de Tupã do bravo que as defendia com sua própria vida. Até os índios mais valentes não seguravam a emoção e deixavam as lágrimas caírem livremente pela face, arrancando a tristeza do peito. Enquanto em vida, o guerreiro, era exímio atirador de flechas, lutava bravamente pelos seus e tinha o coração bondoso com todos, inclusive com os inimigos. Nunca houve um caçador mais habilidoso, um amigo mais leal, um guerreiro mais combativo e ao mesmo tempo mais doce e mais brando que ele, era o que todos diziam em uníssono. Por isso, também vieram para a cerimônia, além de outros representantes das forças universais, Ogum, o guerreiro de ferro; Xangô, o orixá da justiça; Iansã, a rainha guerreira; Iemanjá, a Grande Mãe das águas marinhas; Oxum, a deusa dos rios e cachoeiras, Obaluaê, o orixá da evolução, até Oxóssi, o senhor das falanges a qual pertencia o índio guerreiro, veio pessoalmente também prestar sua homenagem. Além desses orixás africanos que adotaram as terras brasileiras e outros representantes das forças universais, Shiva, o deus do oriente que exalava seu perfume de bálsamo oriental e Miguel, o arcanjo das falanges celestiais, também estavam presentes. Todos em silêncio, perfilados à margem esquerda do rio.

Enquanto o cortejo passava tranquilamente carregado pelas águas do rio, os pajés com seus cachimbos e maracás entoavam mantras sagrados, cada um em sua própria língua, e requeriam dos guias espirituais ajuda para a entrada do guerreiro no reino de Tupã.

Uma última batida de tambor cessou todo o som no local e um índio abatidíssimo de tristeza, amigo de Sete Flechas em vida, destacou-se do meio do pelotão de guerreiros e esticou seu arco, enquanto o cacique da tribo acendia com uma tocha a ponta da flecha, o índio apontou para o barco florido e atirou sua seta flamejante. A flecha cortou o vento em assobio sibilante e descreveu uma parábola no ar, acertando o canto do barco. Logo as chamas se espalharam e uma forte comoção tomou conta de todos os presentes - deuses e mortais. O encontro da emoção de Shiva, o deus perfumado do oriente, com a comoção dos orixás africanos provocou um frenesi no ambiente e uma histeria coletiva começou a tomar conta dos corações e bocas dos mortais. Enquanto a o fogo se espalhava pelo corpo do valente no barco, a fumaça ganhava contornos diversos que se elevavam aos céus em espirais. Choros copiosos, mantras sagrados, sons de maracás, gritos de guerra, batidas no peito, tambores retumbantes, flautas histéricas e vozes em línguas diversas formavam uma corrente de energia que sua vibração podia ser ouvida, sentida e vista a olho nu por qualquer mortal. Até os animais da floresta, do rio e do ar pararam neste instante em profundo sinal de respeito.

Por fim, num tufão de chamas e fumaça esbranquiçada, Sete Flechas levantou-se de seu esquife, e olhando para a margem esquerda, onde estavam os deuses, fez seu sinal de agradecimento e, espalhando-se por cima dos índios lamentosos do lado direito do rio, ganhou rapidamente os céus em direção ao reino de Tupã.

Logo uma reunião entre os deuses ali presentes se formou, confabularam entre si algumas questões e depois permaneceram em silêncio novamente. Pouco depois o índio que acendera aos céus retornava, agora com seu ofá carregado de flechas às costas, seu arco na mão e um cocar feito coroa colorida a cobrir-lhe a cabeça, parecia mais alto e mais forte que antes.

Ajoelhou-se ante os seres celestiais em sinal de aceitação de sua missão. Oxóssi se aproximou e colocou uma flecha em seu braço direito, era seu presente ao filho valente, era o poder de curar os enfermos transferido a ele. Em seguida Ogum também se aproximou e colocou em seu braço esquerdo outra flecha, era o poder de defender os filhos na terra de todas as maldades. Xangô também lhe deu seu presente, uma flecha que cruzou em seu peito para que ele defendesse a humanidade de toda injustiça; e assim seguiu Iansã, que cruzou outra flecha em suas costas para que ele defenda seus filhos de qualquer traição; Oxum, que colocou uma flecha em sua perna esquerda para que ele possa lavar os caminhos do homem e os defender de todas as forças contrárias à vontade divina; Iemanjá com uma flecha em sua perna direita para que ele possa abrir os caminhos materiais e espirituais de tantos filhos por ela amados; e por fim Obaluaê, que colocou em suas mãos sua flecha sagrada para que ele distribuísse à humanidade a divina força da fé e da verdade. Shiva, por sua vez, encantou o índio com seu maravilhoso perfume das terras do oriente.

Renovado e abençoado pelos deuses, o guerreiro em novo corpo agradeceu os presentes, levantou-se, e, virando-se em direção aos seus do outro lado do Juti, soltou um forte brado de guerra.  As tribos da outra margem do rio fizeram grande alarido de alegria com gritos, flautas, tambores e maracás, e o que era pranto se tornou uma grande festa entre deuses e índios. A comemoração seguiu pela noite afora e a alegria pela mata adentro, e a partir desse dia as guerras entre as tribos daquela região cessaram para sempre, pois o índio, agora elevado à condição de protetor dos filhós de Oxalá e Tupã, era parte de todas as tribos e os tornou uma só família.

(Ao meu Pai Cristiano de Oxosse)

Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

domingo, 15 de abril de 2012

SALVE OGUM, JORGE E POVO BRASILEIRO


OS ENVIADOS

Numa época distante, perdida no tempo em que os homens defendiam sua honra e suas vidas com a espada, vivia um povo simples, pessoas de bem que não conhecia a guerra, até aquele momento, pois este povo corria o perigo iminente de ser eliminado por uma violenta tribo invasora que destruía a tudo e a todos em seu caminho.

Este povo simples não possuía armas, mas tinha fé, e assim orava aos céus para que fosse enviado um livramento.

Às vésperas da invasão, um valente cavaleiro das terras do norte vinha montado num cavalo branco; trazia em seu corpo uma lustrosa armadura, um escudo em sua mão esquerda, uma espada em sua cintura e nas costas uma longa capa vermelha. Do outro lado vinha um grande e valente guerreiro negro a pé, também de armadura, escudo em punho, uma espada na mão. Próximo do povoado os dois se encontraram. O guerreiro a pé gritou logo.

-Auto lá, estranho! Se for de bem, se apresente; se não for que se curve.

-Só me curvo ou ao meu Mestre e Senhor! Mas se quer saber eu sou Jorge, nascido da Capadócia, da ordem de São Miguel, enviado de Jesus Cristo para lutar por este povo. E vós, quem sois?

-Eu sou Ogum, vindo das terras de Ifé, rei de Irê, das tribos yorubás, da ordem dos Orixás e enviado de Oxalá para lutar por este povo que não conhece a guerra.

-Então baixemos nossas espadas, amigo, temos o mesmo objetivo e o mesmo inimigo em comum, e como eles são numerosos, podemos lutar juntos.

Aquela noite os dois guerreiros aproveitaram que a tribo inimiga não esperava um ataque - pois sabia que o povoado a sua frente era de paz - e fizeram um ataque de frente. Ogum, o guerreiro de Oxalá, empregava todas as suas forças no combate e sua espada não descansava um momento sequer. Jorge, o cavaleiro do norte, montado em seu cavalo distribuía golpes à esquerda e à direita, seu escudo não teve serventia nesse confronto, pois seu espírito guerreiro combatia abertamente por uma causa justa e um povo de paz.

Na manhã seguinte, após a vitória, os dois guerreiros conversaram.

-Cavaleiro, lutaste como um verdadeiro e digno guerreiro, sempre que precisar, pode me chamar, terei a imensa honra de combater qualquer batalha ao seu lado.

-Eu digo o mesmo, guerreiro negro, e aqui firmo nosso acordo selado pelo sangue da batalha, onde um estiver lutando o outro lá estará, a partir de agora somos irmãos.

Como após a guerra, os dois guerreiros não adentraram o povoado, os pacifistas ficaram sem saber o que realmente aconteceu, apenas contaram e enterraram os corpos no acampamento inimigo e agradeceram aos céus pelo livramento. Os inimigos que sobraram fugiram, espalhando a notícia pelos arredores que aquele povoado não conhecia a guerra porque era protegido por dois enviados dos deuses, e pelo modo que combatiam esses dois valentes também eram deuses, deuses da guerra.

A fama desse combate atravessou os tempos e espalhou-se com o vento pelos quatro cantos do mundo, de boca em boca, de povo em povo, de geração em geração. A valentia dos dois combatentes do bem inspirou fracos e fortes, homens e mulheres, povos, exércitos e reinos. Uns dizem que na verdade não eram dois, era um guerreiro só, mas como lutava com tamanha valentia, pareciam dois; uns dizem que o povoado fica a oeste do Atlântico, ao sul, numa terra ensolarada e banhada pelo mar, e que o povo é alegre, festeiro e tem uma fé inabalável. Dizem também que até hoje os dois guerreiros que, se amalgamaram no coração desse povo, ainda os protegem e lutam por eles.


Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O CRENTE E O MACUMBEIRO


 O CRENTE E O UMBANDISTA

Um crente entrou num ônibus do subúrbio e foi se sentar ao lado de um umbandista. Muito educadamente o crente cumprimentou o outro – Bom dia! O umbandista, também educadamente, respondeu ao cumprimento e os dois começaram uma boa conversa sobre amenidades. Falaram da qualidade do transporte público, da educação, do clima, da política e até de futebol. Os dois concordaram praticamente em tudo e riram de algumas situações. E assim a conversa seguia animada, até o assunto ir parar na religião e um declarar para o outro sua fé.

-Sinto muito senhor, mas está enganado, Deus não se agrada dessas coisas, o senhor está no caminho errado, isso é macumba!

-Eu é que sinto muito, o senhor é que não conhece Deus direito e nem a minha religião.

-Na minha igreja Deu se manifesta com milagres e maravilhas, é só ir lá pra ver. O senhor tem que aceitar Jesus enquanto é tempo.

-No meu centro Deus também se manifesta, lá tem curas, revelações e milagres também.

-A palavra de Deus diz que não devemos adorar imagens.

-A palavra de Deus não é só a bíblia, e ela também diz que o principal é o amor, vocês, evangélicos distorcem muito ela.

-O sangue de Jesus tem poder!

-Saravá, que meu Pai é maior!

A discussão seguiu nesse tom de agressividade crescente com acusações mútuas. Um dizendo que a religião do outro era coisa do demônio e o outro dizendo que a religião do um é que tinha se afastado de Deus. Enquanto isso o restante dos passageiros, escandalizados, presenciavam o belo espetáculo proporcionado pelos dois, que quase se pegavam aos tapas.

Na mesma noite os dois foram para seus templos orarem. Enquanto o crente na igreja pedia fervorosamente a Jesus que libertasse aquela alma da perdição, o umbandista, no centro, intercedia com sincera devoção a Oxalá para que tirasse aquele irmão das trevas da ignorância.



Zeca d’Oxóssi da Aldeia tupinambá

segunda-feira, 2 de abril de 2012

OXALÁ, UMA LIÇÃO DE HULMILDADE


A FILHA DE OXALÁ

Jacira abriu os olhos lentamente e foi se esticando toda na cama preguiçosa que insistia em segurá-la mais um pouco naquela manhã de sábado. Esse pouco já passara de duas horas do horário habitual de acordar. Na verdade Jacira sabia que o desânimo era sua depressão dando as caras pela primeira vez no ano. E ela sempre vinha pelo ao menos uma vez no ano, ela vinha, com toda certeza. Ela sabia também que a depressão começava a se instalar por causa da angústia sentida pelos últimos acontecimentos: recém-desempregada, a mãe muito mal no hospital, o marido bebendo e o filho andando com más companhias. Tudo isso junto era demais até para quem não sofria de depressão.

Mas hoje ela iria resolver essa situação, há semanas que não se consultava no terreiro do Pai Cipriano com ninguém. Das últimas vezes que passara com as entidades, os passes e banhos não pareciam surtir efeito, não o efeito que ela queria. Como boa filha de Iemanjá que era, sempre apelava primeiro à Grande Mãe nas aflições, depois a outros, conforme fosse o caso. Se a coisa fosse com a justiça, apelava para Xangô das pedreiras; se fosse caso de saúde, aí era com Oxóssi e seus caboclos; se a coisa fosse alguma contenda mais forte com alguém, o caso era com Ogum guerreiro; os negócios do coração eram com Oxum. Nesse caso Jacira cismou que não ia procurar nenhum Orixá nem entidade abaixo de Oxalá. A mulher queria porque queria não somente a ajuda do criador da Terra como também queria falar com ele pessoalmente, apesar de todos dizerem pra ela que isso era um absurdo, pois Oxalá não dá consulta. E nesse querer ela passou o mês sem se consultar com ninguém no terreiro do pai Cipriano. Sempre ia, mas ficava lá no canto, rezando e esperando o mestre maior aparecer em algum médium e chamá-la para a consulta. E nessa espera passou o mês na agonia e sua angústia aumentando.

Mas hoje isso ia mudar, ela tinha certeza disso, custasse o que custasse, ela ia falar com ele. Não levou oferenda nesse dia, foi resoluta que iria ser atendida pelo divino Orixá. A gira começou como sempre, humildemente o Pai iniciou os trabalhos com a prece de cáritas e os demais cânticos umbandísticos. Seguiu-se a defumação, a oração e o bate-cabeças. Os caboclos de Oxóssi foram os primeiros a descer, depois as entidades de Iansã, as de Oxum e os da Grande Mãe. A energia podia até ser vista no ar, mas nada de Oxalá aparecer. Por último o Pai chamou os pretos-velhos. Jacira se resignou no seu canto, não tinha jeito. Um dos pretos velhos incorporado num jovem médium da casa, que nem cambono tinha, chamou a triste mulher para falar com ela. Jacira achou que não tinha nada a perder e foi ouvir o que o velho tinha a dizer.

-Minha filha, o que se passa com essa sua cabeça? Não sabe que os filhos de Oxalá não podem ficar tristes?

-Sim, meu pai. Sei sim, mas só Oxalá pode me ajudar, eu tenho uma dor na alma que se apodera de mim de tempos em tempos.

-E porque você não pede pra ele tirar isso de você de uma vez?

-Eu quero pedir isso pra ele pessoalmente meu pai.

-E por que não pediu ainda? Ele está sempre ao seu lado, minha filha.

                -É que eu quero vê-lo, quero senti-lo, olhar em seus olhos, sei que quando eu olhar em seus olhos eu vou ser curada de toda dor e angústia.

-Minha filha, quantas vezes eu te recomendei um banho e fizeste sem fé? Quantas vezes eu te falei olhando nos olhos e não me reconheceste? Quantas vezes eu estive aqui e te aguardei para falar com você e não me deste atenção?

-Como assim, meu pai? Não estou entendendo, eu quero falar é com Oxalá...

-Pois está falando com ele, filha.

-O quê?! O senhor é Oxalá? Como pode? Me disseram que era um preto-velho que havia me chamado.

-Filha, eu posso tomar a forma que eu quiser para ajudar meus filhos na terra. Não só eu, várias dessas entidades que você vê aqui não foram exatamente negros que sofreram nas senzalas pelo Brasil, mas tomaram essa forma humilde para ajudar vocês.

Jacira ajoelhou e começou a chorar aos pés do velho.

-Pai, perdoa a minha ignorância, eu realmente não sabia dos teus mistérios.

-Isso não é mistério, minha filha, qualquer um que estudou um pouquinho dos livros da umbanda sabe disso. Esses livros também foram iluminados e são um meio de eu falar com vocês.

-Sim, meu pai. Sim, obrigado pelo ensinamento. Quero te pedir uma coisa ainda, permita que eu veja sua beleza, só assim encontrarei descanso e alívio para minha alma.

-Me dê a sua mão, filha. Vem comigo. Jacira ficou de pé e fechou os olhos, estendeu as mãos, e ao tocar as mãos do velho seu corpo ficou paralisado.

-Filha, pode abrir os olhos. Eu estou aqui à sua frente.

-Senhor, não és muito diferente da imagem de qualquer preto-velho que vemos lá na Terra. Achei que fosse forte e vigoroso, já que és o maior dos orixás.

-Não minha filha, não sou maior que ninguém, sou apenas mais um enviado de Olorum.

-Mas na Terra aprendemos que o senhor é o orixá maior.

-Isso depende de quem diz.

-Como assim?

-Se você perguntar para qualquer um dos orixás, ele irá dizer isso, se perguntar para mim, eu não direi isso.

-Sim, pai. Que lugar lindo! Que energia gostosa e sensação maravilhosa. Onde estou?

-Na minha casa, no Orum.

-Nossa, mas tão rápido. O Orum não é em outro plano, num lugar bem distante?

-Não filha, o Orum não é um lugar, ele está em todo lugar, basta pensar com o coração e ter fé.

-Pai, percebo que seus olhos se parecem brilahantes pedras de cristais e sua pele parece se rejuvenescer aos poucos.

-Sim, minha filha. Quanto mais você me conhece, mais eu fico jovem para você.

-Então meu pai, eu quero ficar aqui para sempre com o senhor, quero vê-lo em toda sua beleza e esplendor.

-Filha, ainda não compreendeste que eu e o Orum estamos em todo lugar, que para sentir-nos basta ter fé e para nos conhecer basta buscar o conhecimento de si próprio? Não é ficando aqui que vai evoluir, minha filha, você precisa buscar esse conhecimento no seu dia-a-dia lá na Terra ,em meio às pessoas e aos problemas terrenos. Não há sentido em buscar o conhecimento em outro plano sem poder colocá-lo em prática. Pois o conhecimento nada serve para alguém senão for para ajudar a si próprio e ao seu próximo. Eu preciso de você lá na Terra, minha filha, foi para isso que te enviei àquele lugar.

-O que? Eu sou uma enviada sua, meu pai?! Achei que eram só as entidades e orixás.

-Não, filha. Você é minha enviada. Na verdade todas as pessoas de bem são, mas a maioria deles se esqueceu disso quando cresceram e desaprenderam a amar.

-E esta angústia em minha alma que aparece de tempos em tempos em forma de depressão, meu pai, o que eu faço? Como posso ajudar as pessoas assim?

-Você tem que lutar minha filha. Por você ser especial, há forças poderosíssimas do outro lado querendo te atrapalhar em sua missão. A luta de todos é diária, não se pode baixar a guarda, nunca. Mas você pode contar conosco aqui do outro lado, sempre estivemos ao seu lado e nuca a abandonaremos. Há uma uma coisa que nem eu nem ninguém pode fazer por você: a sua parte.

-Está bem, meu pai, pode contar comigo, eu serei mais firme nessa luta.

-Então pode abrir os olhos novamente, filha.

Jacira abriu os olhos e viu que estava diante do jovem médium incorporado por um preto-velho. Ao se despedir do velho, que já não parecia mais tão velho assim, sentiu-se mais forte e animada. Desse dia em diante Jacira nunca mais deixaria de ver o Grande Pai Oxalá em todos os momentos de sua vida.
( Para o Alexandre)


Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

terça-feira, 27 de março de 2012

O BAILE DA POMBAGIRA


                       A DAMA DE ARUANDA

Bate o tambor no ritmo do coração umbandista

Da casa de Oxalá vem a Dama de Aruanda

Vem no passo dessa dança, no compasso dessa gira

Vem na força da mulher, no axé das energias

Balança, gira e roda a saia da Padilha

Flutua no ar os passos da bela dama

Roda, gira e volta no mesmo passo

Ela dança, ela gira, ela ri e seduz

Ela para e olha ao redor esbanjando seu charme

Uma cigarrilha entre os dedos

E os cabelos soltos aos ombros

Laça e leva consigo meu coração

A magia de seu olhar e a sabedoria de suas palavras

Me enfeitiçam, me atiçam, me ensinam e fascinam

E roda e roda a saia da cigana

E dança e balança esvoaçando seus cabelos

É brincadeira de roda, é gira de esquerda, é baile de rainhas

É a dama no centro roubando os corações

Hó, formosa dama dos meus sonhos

Me concede o prazer da contradança

Uma gargalhada reverbera no espaço

Pronto, eu sou seu eterno cativo

Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

segunda-feira, 19 de março de 2012

MINHA MÃE ISANSÃ


A GUERREIRA

Eu sou um dos filhos da senhora Iansã, ela tem nove filhos e quando partiu deixou para nós um chifre de búfalo para que pudéssemos chamá-la através dele. Um dia, quando ela veio nos visitar, eu pedi para ela contar uma história, uma das muitas histórias que ela viveu nesse vasto mundo guerreando pelos seus. Sim, meu filho, eu posso contar muitas histórias que eu vivi nas minhas andanças por este mundo. Qual história você quer ouvir? Quero ouvir alguma história que a senhora viveu com Iemanjá, ouvi dizer que a senhora tem ciúmes dela, que não gosta dela. Isto é verdade, minha mãe?

Besteira, meu filho. Eu sou enviada de Oxalá, sou guerreira, sou mulher e sou mãe igual a ela, como posso ter ciúme, intriga ou qualquer outro sentimento ruim com a grande mãe? Eu sempre fui muito senhora de mim, sempre me garanti em qualquer situação e nunca arredei o pé de qualquer batalha, jamais neguei um pedido de um filho meu. Por eu ter amado Ogum, recebi dele uma espada para entrar em qualquer batalha e sair vitoriosa. Por eu ter amado Xangô, o rei de Oió, recebi dele o segredo do raio e do fogo que sai pela boca. Por eu ter ajudado o homem mais bonito que conheci, Obaluaê, ele me ensinou os segredo do domínio sobre os mortos. Ossaim me ensinou os mistérios das ervas e o poder da cura de qualquer enfermidade. Eu domino também os ventos e tempestades. Desta forma muitas tribos me chamam para ajudá-las nas mais diversas situações, e eu sempre auxilio a todos que me pedem ajuda, sem distinção. Durante algum tempo eu ajudei uma tribo de guerreiros perto do mar do norte, eu era sua guardiã e protetora. Esse povo era muito forte e próspero, e possuía muitas riquezas em seu território, por isso eram sempre atacados pelas tribos vizinhas. Como eu era a guardiã deles, sempre que me chamavam eu estava presente nas lutas e eles sempre saíam vencedores e sempre aumentando mais e mais seu poder. Com o tempo as tribos vizinhas perceberam que não adiantavam seus ataques porque eles eram muito fortes e ainda eram ajudados por mim. Então permaneceram algum tempo sem atacá-los, juntando forças para um ataque combinado e mais elaborado. Essa guerra foi boa. As tribos se enfrentavam com ferocidade e o sangue dos guerreiros lavava o chão do campo de batalha. O combate durou dias. Eu atacava o inimigo sem dó e inspirava os outros guerreiros que também lutavam por suas vidas. No terceiro dia de luta, quando já não pisávamos no chão, mas somente em corpos, apareceu do meio de uma das tribos inimigas um guerreiro realmente forte. Este ia dar trabalho, pensei, ia valer a pena lutar. Naquele momento todos já estávamos exaustos, mas lutávamos por nossas vidas. Para minha surpresa aquele bravo parecia inteiro e cada golpe seu era carregado de uma força descomunal. Na verdade o guerreiro havia sido uma surpresinha de última hora das tribos inimigas; eles o deixaram de fora da batalha os dois dias anteriores para descansar e assim acabar comigo quando eu já estivesse bastante cansada.

Eu realmente não sabia o que fazer. A fome e o cansaço me dominando e o guerreiro avançando sobre mim com toda sua fúria; os golpes pareciam vir de todos os lados. Já tinha dado o combate por perdido, mas não ia me entregar, não sem antes deixá-lo sem algum braço ou feri-lo um pouco para que outro guerreiro pudesse terminar o serviço mais tarde. Foi quando eu senti uma força atrativa me puxando para o mar. Não sabia o que era, mas fui atraindo o inimigo para lá. Foi aí que tudo começou a mudar. O guerreiro precisou tirar sua pesada armadura para poder se movimentar melhor na água e assim ficou mais vulnerável. Mas ainda assim ele era muito forte e ágil. Contrariando toda a lógica, fui sentido minhas forças se renovando mais e mais a cada momento. Parecia que alguma outra força, até maior que a minha, me dominava. Eu não sabia o que era, só sabia que eu tinha o controle do combate naquele momento. Após algum tempo o guerreiro, sem alternativas, procurou dar fuga ao combate. Seria bom ver aquele gigante correndo entre seus pares, assustado, mas era preciso terminar a luta com dignidade. Mais um pouco e eu cravei minha espada em seu ventre. O gigante se contorceu tanto que acabou arrastando a valiosa espada que Ogum me dera de presente com ele para o fundo do mar. Era o fim da batalha para minha tribo. O campo estava tomado de sangue e corpos por todos os lados, e os que estavam vivos quase não paravam em pé. Minha tribo nem comemorou a vitória.

Enquanto estávamos esbaforidos contando nossos mortos, uma figura feminina muito doce saiu do mar e caminhou em minha direção. Ela carregava minha espada em sua mão direita e me entregou olhando docemente em meus olhos. Percebi que aqueles domínios eram dela e fora ela quem me arrastara para lá, para que pudesse me ajudar com sua força maior que a minha. Como pode uma figura parecer tão frágil e tão doce e ainda possuir tamanha força, pensei comigo enquanto olhava no fundo de seus olhos azuis. Eu pousei minha cabeça no chão lavado de sangue de bravos guerreiros e a agradeci, todos os sobreviventes fizeram o mesmo. Sem dizer nada, com seu mesmo ar doce ela se virou e entrou no mar novamente.

Nesse dia eu aprendi uma lição, meu filho. Não importa quantas armas você tenha ou o quão poderoso você seja, você sempre precisa de alguém, e nós nunca podemos recusar uma ajuda amiga.



Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

terça-feira, 13 de março de 2012

UM CANTO PARA OXUM




OXUM


Lá no alto da montanha, nos verdejantes reinos de Oxóssi, nasceu um veio de água vindo do ventre da mãe terra, reino de Oxalá. Um cristalino e pequenino brotão de água a princípio, mas mal nasceu e já foi correndo pelos braços de Oxóssi morro abaixo. A floresta, que tirava dali sua fonte de energia, percebendo o barulho melodioso, melancólico e intermitente que a pequena corredeira fazia na descida, resolveu chamá-la de Oxum. Não demorou muito para que o senhor das matas notasse a formosura da pequena serelepe correndo em seu reino e enriquecendo seu solo com sua presença. À medida que avançava, o volume de água aumentava e a corredeira ia crescendo, até se transformar numa bela e deslumbrante correnteza cheirando a frescor da juventude. Na descida pelo solo acidentado da colina, Oxum entoava seu canto doce e carregava consigo os olhares e desejos de cada morador da mata. Com seu desejo desperto, Oxóssi, o senhor das matas, se enamorou da linda jovem. A bela Oxum gostou daquele flerte e deixou-se entregar com verdadeira paixão a seu protetor. Com ele conheceu os segredos do amor e para ele dedicou seus melhores carinhos. E desse romance logo surgia outros riachos em desdobramentos a correr pela floresta.



Porém Oxum não sossega, ela é inquieta, não sabe esperar. Raramente ela para por alguns momentos em algum rio que o possessivo Oxóssi abre no meio do caminho para aprisioná-la. Mas isso é só por alguns momentos, em pouco tempo lá se vai ela correndo novamente, parecendo atender a algum chamado urgente mais abaixo da montanha.



Uma vez solta das amarras do lago, a bela correnteza desliza suave pelas pedreiras das terras de Xangô. O contato das águas com o duro e rochoso reino de Xangô muda logo o tom da canção de Oxum. É amor ao primeiro toque. A canção que a bela traz em seus lábios agora embala o namoro aberto do senhor das pedreiras com ela. No início é um romance leve, Xangô é conquistador e sabe cativar uma dama, sabe deixá-la à vontade em seus braços e respeitar seu tempo e seu ritmo. Quando a bela jovem se apercebe, já está se entregando sem reservas ao mestre das rochas. Os dois amantes não descansam, e nessa atividade passam dia e noite. O amor parece ter pressa de acontecer, e não ter hora para acabar, é voraz. E os dois seguem ziguezagueando nessa bulinação e deslizando montanha abaixo; e é lá embaixo, onde a montanha parece terminar bruscamente num sobressalto, para começar novamente numa grande pedra a alguns metros mais abaixo, que Oxum se derrama com toda a força de sua correnteza, todo ardor e beleza sobre as costas de seu amado. Ali Oxum se lança em cascata, entregando-se sem medidas, sem medo e sem reservas ao amante, ali acontece o clímax do ato de amor do senhor das pedras e da bela Oxum. E a canção agora já não é mais um canto doce e melancólico, esse frenesi amoroso produz um som estridente de chiado, parecendo que o fogo de Xangô finalmente encontrou quem o aplacasse. De longe, um observador atento pode enxergar um véu de água cristalina espalhar-se sobre as pedras, são os amantes em celebração das núpcias. Um pouco mais abaixo e a bela, extasiada, vai descansar no leito de um calmo rio especialmente preparado para ela por seu amado. A busca inquietante de Oxum afinal encontra descanso no peito de Xangô.



Passado o momento de descanso, enquanto Xangô repousa da batalha do amor, Oxum segue seu caminho rumo ao destino final, agora refeita, completa. Segue um pouco mais em ritmo lento até finalmente encontrar, nas águas salgadas do mar, os braços abertos da Mãe Iemanjá prontos para recebê-la em seu regaço.







Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá



domingo, 11 de março de 2012

EXU CAVEIRA


SEGURANÇA

Na praça central da cidade há muitas pessoas aproveitando o sol na tarde de domingo. As crianças brincam na área de brinquedos sob a vigilância de suas mães, os jovens aproveitam para namorar na grama verdinha à sombra das árvores, os ambulantes vendem seus objetos artesanais e os seguranças rondam a praça a pé na ocupação de encarar as pessoas. Entre os ambulantes está dona Nice, a baiana vendedora de acarajés, e entre os seguranças está seu Geraldo, homem esguio, alto, forte e muito bem para seus quarenta e oito anos de idade bem vividos. Há muitas pessoas na praça nessa tarde, assim como há diversos olhares sobre os acontecimentos. Os jovens olham apaixonadamente seus pares, os ambulantes olham os clientes passarem, os seguranças olham problemas em todos os cantos, as mães olham seus filhos no parque e as crianças só têm olhos para seus brinquedos.

Mas há também um tipo bem comum em qualquer praça de qualquer canto do mundo: os desocupados moradores de rua que, sem verem perspectivas na vida, aproveitam para pedir algo aos transeuntes.  Nessa tarde, um desses desocupados já bem mamado de cachaça na cabeça, se desentende com outro colega de ofício e surta no meio da praça com uma grossa barra de ferro na mão. Todos os olhares da praça se dirigem logo para o surtado que ameaçava qualquer um que tentasse se aproximar. As mães viram um homem sem o carinho e a proteção de uma mãe na infância, os ambulantes viram alguém atrapalhando os clientes, os seguranças viram um problema a ser resolvido imediatamente, os jovens viram um homem que precisava urgentemente de uma mulher para amar e as crianças viram um adulto que não sabia brincar.

Enquanto a praça acompanhava a cena, os seguranças tentavam conversar com o homem e fazê-lo largar a arma no chão. Em vão. Seu Geraldo, que até então estava a distância observando seus parceiros, aproximou e, olhando firme no olho do pobre homem, ordenou-lhe que largasse aquela barra para conversar. Sem chance. O homem, além de não atendê-lo, espetou-o com o ferro na altura da barriga. Seu Geraldo não viu mais nada, partiu para cima do agressor e este, erguendo sua grossa barra de ferro, também partiu para o ataque ao mesmo tempo. Todos da praça viram a iminente desgraça de seu Geraldo acontecer ali mesmo; menos dona Nice, que viu o tempestuoso Exu Caveira tomar a frente do segurança.

 – Exu omojubá! A baiana pedia proteção para o homem de bem. O Caveira, levantando rapidamente a mão esquerda de seu protegido, aparou a barra de ferro em sua própria mão e, num ato quase simultâneo, levou a outra mão de seu Geraldo à garganta do desafortunado estrangulando-o e imobilizando-o. Os outros seguranças tiveram um trabalhão danado pra tirar a mão de seu Geraldo daquele pescoço sujo.

Ao término do espetáculo todos viram, incrédulos, a grossa barra de ferro amassada justamente na extremidade que atingira seu Geraldo, e constataram, surpresos, o segurança sem um arranhão sequer.

Mais tarde a baiana ofereceu um acarajé de graça para seu Geraldo e disse o que tinha visto. Disse também para ele evitar este tipo de combate porque o Caveira não brinca em serviço, quando ele vai, vai pra matar.

Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá

quarta-feira, 7 de março de 2012

ADOREI AS ALMAS


O HOMEM DO TEMPO

Na estrada empoeirada de terra batida e sob um sol escaldante que confundia a visão em miragens visionárias, aparecia lá longe um vulto pequenino em movimento no horizonte. Lentamente o vulto ia se avolumando até se distinguir entre a paisagem um carro de passeio vermelho chegando à cidadezinha e levantando um poeirão atrás de si. O veículo parou bem em frente a uma loja de produtos artesanais e dele desceram dois homens e duas mulheres com ares de turistas, todos jovens. Após esticarem os músculos de braços e pernas, o grupo confabulou entre si algumas tarefas e se dividiram, enquanto as mulheres entraram na loja de artesanatos, os rapazes foram encher o tanque do carro no posto de gasolina mais à frente. Depois de uma rápida olhada no interior da loja, Janete, a mais nova, saiu para aguardar a amiga lá fora.

 – Bom dia! Era uma voz grave que vinha do lado da porta da loja, tratava-se de um velho senhor negro de barbas brancas, roupas rotas, um chapéu de palha na cabeça e fumando um cachimbo sentado num banco de madeira sob o toldo da varanda, ao lado dele havia um pedaço de pau, um violão velho e no chão uma caixinha com umas moedas onde se lia um singelo OBRIGADO à caneta. Como o homem sorria de forma simpática, Janete respondeu também de forma simpática ao cumprimento do nativo. - A viagem está sendo boa? Quis saber o preto velho.

 – Está sim senhor. Estamos indo pra Santa Luzia, paramos um pouco pra descansar, com esse tempo chegaremos hoje à noite na cidade.

- E melhor ficarem por aqui hoje e seguir amanhã, vai chover forte.

- Imagina olha o sol que está fazendo, e o céu não tem nem nuvens. Temos que chegar logo não aguento mais essa estrada.

-Nete, tem umas coisinhas muito bacanas nesta loja, olha o que eu comprei para usar com aquele vestido. Era Patrícia, a mais velha que saía da loja carregada de bugigangas.

- Pati, este senhor está dizendo que vai chover forte e que é melhor a gente ficar por aqui hoje, pode?

-Bom dia, menina!

- Bom dia senhor. Há não, temos que ir hoje, mesmo que chova.

Neste momento chegaram os rapazes a pé para dar a notícia que o carro precisava de uns reparos e que só ia ficar pronto mais tarde. Bem, o jeito era comer algo e esperar. O grupo se dirigiu a uma lanchonete em frente da loja para a refeição. Da lanchonete, Janete e seus amigos observaram que uma mulher trazia um moleque raquítico de uns quatro anos pelas mãos e, após falar algo ao velho, este pegou umas ervas ao seu lado no banco, pitou seu cachimbo e baforou no corpo da criança enquanto mexia com a boca parecendo rezar algo. A mulher agradeceu o velho, jogou umas notas amassadas na caixinha e foi embora.

Passada a refeição o grupo foi sentar-se em frente à loja sob o toldo que oferecia uma sombra convidativa e aproveitaram para conversar mais com o velho simpático. O velho pegou seu velho violão e desfiou umas modas de viola de ponteio rasgado, conversou sobre os tempos de outrora naquelas bandas, quando o senhor branco ainda mandava sob o fio do chicote, contou histórias de assombração das matas e dos livramentos dos caboclos de Oxóssi. A conversa seguiu nessa toada sem pressa até a sombra curta do toldo se esticar para lá do meio da rua de terra poeirenta. Um rapaz veio trazer o carro que já estava pronto e o estacionou junto à porta da loja. De repente o céu se fechou e umas nuvens de chumbo se formaram sobre a cidade, Janete sugeriu ficarem mais um pouco até que a chuva que parecia iminente passar, ao que todos concordaram.

A chuva caiu torrencialmente sobre a pequena cidade. As ruas logo viraram leito de rio e o carro ia afundando em meio às águas lamacentas, para desespero dos turistas. Janete solicitou ajuda ao velho.

- O senhor parece conhecer tantas coisas, tem o poder da cura e disse que foi salvo tantas vezes dos perigos da floresta, será que não tem o poder sobre o tempo também não?

O velho, que parecia tranquilo o tempo todo, sorriu gostosamente entre a fumaça do cachimbo. – Na verdade eu não tenho poder nenhum, nem de dar cura a ninguém, eu sou só um homem comum.

- Mas eu vi o senhor benzer aquele menino, vi o jeito que a mulher agradeceu tão devotamente o senhor, ouvi como o senhor profetizou a chuva quando não havia nem sinal de nuvem, e estas histórias todas que o senhor contou pra nós...

-Na verdade eu só aprendi o que meus pais me ensinaram, é que vocês não sabem ler o que está escrito na natureza, não é só nuvem que é sinal de chuva. Sobre a cura, isso é com as ervas certas e a fé das pessoas, não sou eu. Eu não tenho poder nenhum.

O grupo se resignou sob a inabalável força da natureza, mas permaneceram de pé assistindo ao afogamento do veículo que já estava acima da linha da porta àquela altura.

- Mas eu conheço quem tem o poder sobre o tempo. Era o velho em tom maroto atrás da fumaça. Os jovens se animaram novamente. – E quem é? Ele pode nos ajudar agora? Era o jovem mais alto do grupo, o motorista.

- É a minha mãe. O velho pegou o pedaço de pau a seu lado, na verdade sua bengala, levantou-se com dificuldade e, encostado no mourão de sustentação da varanda, deu duas baforadas no cachimbo para o alto, levantou seu cajado e gritou com uma força imprópria par sua idade: - Eparrei, Iansã! Valei minha mãe guerreira que seus filhos precisam de sua ajuda. Neste momento um raio cruzou o céu sob a mata no horizonte e um trovão retumbou no ar sob a cidade. A chuva foi cessando imediatamente seu chiado até parar de vez, para surpresa geral dos jovens boquiabertos.
            Lentamente a água das ruas foi baixando e logo só sobrou lama, que também secou logo porque o sol voltou a brilhar no firmamento. Aquela noite os jovens dormiram na cidade e aproveitaram para ouvir mais as histórias do velho sábio. No dia seguinte a caixinha do velho amanheceu recheada de notas que ele nem sabia que existiam.

terça-feira, 6 de março de 2012

A SABEDORIA DO MARINHEIRO


O SENHOR DO MAR


Não sei se era o mar que estava agitado aquele dia, se era o tempo que estava cinza ou se era meu coração apertado que dava aquela sensação. Só me lembro que realmente eu não estava bem, uma chateação, um misto de coisa ruim com depressão havia tomado conta de mim desde quinta feira e eu resolvera dar um passeio pela praia. Fui com a mulher e as crianças e, enquanto eles ainda dormiam, saí cedo para um passeio, já que não conseguia dormir mesmo. Sentei na areia macia e fiquei ali observando o vai e vem constante das ondas. Enquanto eu estava absorto nos pensamentos da semana, um sujeito saiu da água e veio em minha direção. Fiquei surpreso, não havia percebido a presença de ninguém nadando ali. Era um senhor branco, alto, forte e pele queimada de sol. O sujeito veio em minha direção e me acenou com um bom dia, estranhei, pois a praia estava vazia àquela hora da manhã. Respondi ao cumprimento e ele sentou a pouca distância de mim olhando o horizonte marinho. Ficamos em silêncio por pouco tempo. O homem então me chamou a atenção para a beleza do sol já um pouco acima da linha do mar. Era realmente era um espetáculo fascinante que eu ainda não havia notado por estar distraído com meus problemas. Sorri meio sem graça em sinal de concordância, ao que ele disse que aquele espetáculo se repetia todos os dias e quase ninguém apreciava. Isso era verdade, eu pensei. Percebendo meu silêncio triste, o nadador perguntou se estava incomodando e se eu preferia ficar só. Eu disse que não e falei que estava passando por uma fase difícil, mas que não era nada com ele.


A parir daí o senhor começou a contar algumas histórias que se passara com ele no mar. Disse que era um marinheiro e que, por passar mais tempo na água que em terra, tudo o que sabia aprendeu com ele, o mar. Contou-me contou sobre as correntes marinhas e como elas podem ser perigosas e traiçoeiras, mas, se bem aproveitadas, como elas facilitam a viagem do navio. Como os homens se guiam à noite apenas pelas estrelas no firmamento quando os equipamentos falham. Falou sobre os sonhos dos marinheiros com as lendárias sereias e seus cantos que enfeitiçam a tripulação, dos balés das baleias e dos giros dos saltitantes golfinhos. Da sabedoria adquirida em toda uma vida sobre a lâmina d’água. Da sensação gostosa quando se chega a algum porto distante, da dificuldade de adaptação em terra e da sensação de desequilíbrio, da alegria incontrolável quando o navio levanta âncora e parte novamente para alto mar. Por fim me confidenciou que não há nada mais profundo e misterioso e encantador que o oceano, que perto dele e da sua força nós nos tornamos minúsculos e nossos problemas são como um grão daquela areia da praia, e que, mesmo vivendo uma vida inteira balançando sobre o casco do navio, não chegou a descobrir um isso dele. Deu-me umas dicas de como permitir que as águas salgadas levem nossos problemas para suas profundezas, de como entrar nelas com respeito e devoção e me banhar em sua fonte de energia revitalizante.


Suas palavras eram profundas e por vezes calmas, por vezes tempestuosas, como o próprio mar. Enquanto o tal homem me falava tudo aquilo eu podia sentir a profundeza de suas palavras, e um sentimento de abraço acolhedor de mãe ia me envolvendo e me fazendo sentir seguro. Nessa conversa o tempo foi passando que eu nem percebi o adiantado das horas e como a praia já contava com muitos banhistas àquela hora. Nesse instante minha mulher vinha chegando com as crianças me acenando ainda de longe, foi quando o marinheiro se despediu e, dizendo que precisava ir pra casa, saiu caminhando devagar em direção ao mar; achei que ele ia dar mais um mergulho antes de partir, mas o perdi de vista logo. Ela me deu um beijo, sorriu e disse que eu parecia melhor, perguntei se ela tinha visto o senhor que conversava comigo e ela disse que não, que ao chegar me viu sozinho na praia. Não quis contrariá-la e procurei com os olhos o senhor pela água. Nada. Só o mar e o chiado das ondas cantarolando na beira da praia.

 Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá


OGUM YÊ


FERRAZ


Ninguém trabalha na polícia, ninguém tem emprego de policial, polícia não é profissão, ou o sujeito é polícia ou não é; vejo muito moleque chegar com uma idéia errada na polícia e depois de três ou quatro meses na rua pedir baixa. Veja o senhor... Zé, traz outra cerveja! Outro dia eu estava numa ocorrência dos diabos. Aquele dia eu e o Cabo Santos rondávamos à toa pelos lados da Estrada da Capela, lá pelos lados do Bairro novo, quando era só mato e barro por lá. Obrigado, Zé, bem gelada, vire o copo, isso; não tínhamos nada que fazer ali, era o hábito da rotina, um dia tranquilo e uma tarde modorrenta depois do almoço, estávamos devagar, como as ruas eram de terra algumas poças de água barrenta aqui e ali sujavam a viatura e eu só pensava no trabalho que ia dar pra lavar aquilo. Mesmo sendo uma rotina, sabíamos que tinha que ficar alertas, porque quando entramos em qualquer lugar ermo, já entramos espertos e de armas em punho. Mas não deu nem tempo de usá-las ou de apontarmos para alguma coisa, quando vimos já estávamos sendo alvos de vários tiros de uma só vez, chovia balas em nossa direção. Como os tiros vinham da frente e do lado esquerdo da viatura, pulei para fora pela porta direita, enquanto o Santos deitava nos bancos dianteiros. Antes de eu puxar o gatilho, em meio ao barulho infernal dos pipocos e balas zunindo nos ouvidos, o Cabo gritou que havia sido atingido no ombro, mesmo assim ele procurava com a ponta da pistola sobre o painel a direção para onde atirar. Os tiros eram tantos e tão seguidos que eu não conseguia levantar a cabeça para olhar quantos atiravam ou de onde partiam. Com o tempo agente passa a reconhecer pelo barulho e pelo estrago que a bala faz que tipo de arma está sendo usada, era claro que eles usavam revólveres e pistolas, e percebi que eram pelo menos uns três do outro lado, e pelo jeito tinham bastante munição, pois não paravam de atirar. Eu colocava apenas a pistola para fora e atirava na direção contrária; o parceiro deitado na viatura pedia ajuda pelo rádio e levantava a cabeça, apenas para ver onde atirar, e mandava ver. Olha, por mais que você receba um bom treinamento para enfrentar este tipo de situação e por mais que se enfrente esse tipo de ocorrência, a verdade é que você nunca se acostuma e nunca acha que está realmente preparado para essa hora. Com o barulho das balas em sua direção o coração dispara imediatamente e tudo o que o cérebro acumulou de conhecimento em anos de profissão se desorganiza, entra em caos. Mas todo mundo sabe, em qualquer situação de perigo, qualquer uma, o pior inimigo é o desespero, se você se desespera o medo te domina e não o deixa reagir direito. Mesmo assim há um breve momento de descontrole entre o disparo da arritmia e o instinto de sobrevivência, aí o cérebro começa a te alertar para manter o controle. Numa destas levantadas de cabeça do Santos para ver em quem estava atirando, uma bala o atingiu na testa e ele perdeu os sentidos. Ouvi o grito curto e percebi que ele parou de atirar, chamei por ele para que não me deixasse sozinho naquela situação e não obtive resposta, achei que estivesse morto e, justamente quando eu começava a controlar o medo, comecei a achar que era meu fim. Os tiros diminuíram a intensidade e já havia um tempo maior entre um pipoco e outro, o ruim é que agora eram todos na minha direção. Aproveitei o momento e estiquei o braço, alcançando o mike do rádio dentro da viatura para apressar o socorro. Nesse momento, me lembrei que havia uma metralhadora sobre o banco traseiro, não pensei duas vezes, puxei a danada por entre os bancos dianteiros, estava carregada até o talo. Eu sabia que, estando sozinho, ela não faria muita diferença, mas pelo menos eu tinha mais munição até eles, quem sabe, fugirem ou chegar algum reforço. Percebi que os tiros agora não vinham de uma só direção, os bandidos, aproveitando minha desvantagem, começavam a se espalhar, aumentando o raio de ação, logo eu estaria totalmente cercado. Lutando contra a razão querendo entrar novamente em desespero, me dizendo que minha desvantagem era enorme, meu coração, acho que foi isso, me fez levar a mão por entre a camisa e o colete onde eu carregava uma imagem de São Jorge pendurada ao pescoço. Não sei se foi insanidade, se foi instinto de sobrevivência, burrice ou um lampejo de inteligência, só sei que beijei o santinho, juntei a metranca no peito e clamei instintivamente, - Valei, meu pai Ogum! Não deixa eu morrer agora. Saravá! Levantei e segui justamente na direção dos tiros - que não pararam - espremendo o gatilho no guarda-mata e espalhando a ponta do cano da metralhadora em todas as direções, os tiros comiam soltos em sucessões de RRRRRRs para todo lado. Vi um cair logo a minha frente e outro alvejado pelas costas quando corria daquela fúria insana, o outro, atrás de uma moita, eu nem vi cair. Só soltei o gatilho depois de alguns segundos das munições terem acabado.

Os tiros haviam cessado, o silêncio era absoluto. Sem conferir se estavam ou não mortos, corri para a viatura, colocando o Cabo no banco de trás e, num cavalo-de-pau que levantou poeira, virei o carro e corri para a autoestrada em direção a um hospital. Ao chegar ao hospital, não tive tempo para dar explicações, desmaiei antes de completar a primeira frase à enfermeira. Dois dias depois, ao acordar, fiquei sabendo que o Cabo Santos havia sobrevivido e que eu recebera três tiros, um de raspão no pescoço, outro no ombro e um na perna direita, nada sério.

Zé, mais uma gelada! Essa você paga.

Zeca d’Oxóssi da Aldeia Tupinambá